Vice-Província Nossa Senhora Aparecida

AQUELES QUE POR INSPIRAÇÃO DO SENHOR, VEM A NÓS, QUERENDO ACEITAR ESTA VIDA, SEJAM RECEBIDOS BENIGNAMENTE. (TEST. 1; RGTOR 4).

800 anos de Assis a Canindé:

O Capítulo das Esteiras 2026 e a atualidade da profecia franciscana 

Entre os dias 19 e 22 de junho de 2026, o Santuário de São Francisco das Chagas, em Canindé CE, acolheu milhares de membros da Família Franciscana do Brasil para a celebração do Capítulo das Esteiras 2026. Inspirado pelo tema “800 anos… De Assis a Canindé, um caminho de fé” e pelo lema “Felizes os pés dos que anunciam a paz” (Rm 10,15), o encontro reuniu cerca de mil participantes das diversas expressões do carisma franciscano para celebrar os Jubileus Franciscanos e renovar o compromisso com o Evangelho em nosso tempo.

Tive a alegria de participar deste momento histórico juntamente com a delegação do Regional Norte, composta por 22 irmãos e irmãs: 17 de Manaus-AM, 3 de Boa Vista-RR, 1 de Tefé-AM e 1 de Borba-AM (Canumã). Nossa presença representou a riqueza da experiência franciscana vivida na Amazônia e expressou a comunhão entre diferentes fraternidades, ordens, congregações e vocações inspiradas pelo ideal de São Francisco e Santa Clara.

Desde os primeiros momentos, a acolhida revelou o verdadeiro espírito do Capítulo. A dinâmica da troca de botons entre pessoas desconhecidas tornou-se um belo sinal de fraternidade universal, convidando cada participante a sair de si mesmo para reconhecer no outro um irmão ou irmã. A animação conduzida por Frei Lorrane (OFM), Zé Vicente e Frei Luís Ventura (OFMConv) ajudou a criar um clima de alegria, oração e memória agradecida pelos oitocentos anos da caminhada franciscana.

As conferências constituíram um dos pontos altos do encontro. Dom Leonardo Ulrich Steiner (OFM), arcebispo de Manaus, refletiu sobre a minoridade como elemento central da espiritualidade franciscana. Em uma sociedade marcada pelo individualismo, pelo consumismo e pela busca incessante de poder e reconhecimento, recordou que a verdadeira grandeza nasce da simplicidade, do serviço e da gratuidade. Suas palavras tiveram especial ressonância para nós, amazônidas, constantemente chamados a testemunhar uma Igreja próxima dos pobres, dos povos originários e da Casa Comum.

Frei Vitório Mazzuco (OFM), ao abordar o tema “O Jubileu dos Jubileus”, apresentou São Francisco como uma luz que continua iluminando a Igreja e a humanidade. Destacou a importância do retorno às fontes do carisma, especialmente à Regra Bulada, como caminho para enfrentar os desafios contemporâneos. Em um mundo marcado por novas formas de exclusão e desigualdade, o franciscano é chamado a viver como peregrino, irmão e missionário, sempre próximo daqueles que mais necessitam de cuidado e esperança.

A reflexão de Irmã Mônica Azevedo (IFPCC) aprofundou a espiritualidade do Cântico das Criaturas, mostrando que o louvor de São Francisco brotou justamente da experiência da fragilidade e do sofrimento. Ao reconhecer a morte como “irmã”, Francisco ensina a reconciliar-se com os limites da condição humana e a contemplar a vida como dom. Em tempos de inteligência artificial, relações virtuais e aceleradas transformações culturais, a conferencista destacou a urgência de preservar aquilo que nos torna verdadeiramente humanos: a proximidade, a ternura, a escuta e o cuidado mútuo.

Já Moema Miranda (OFS) ressaltou a dimensão profética do carisma franciscano. Inspirando-se na figura evangélica de Bartimeu, convidou os participantes a olhar a realidade a partir das periferias e das margens da sociedade. Sua reflexão encontrou profunda sintonia com a realidade amazônica ao recordar o clamor dos pobres, dos povos indígenas, dos ribeirinhos e da própria Terra. A espiritualidade franciscana, afirmou, não pode ser separada do compromisso com a justiça socioambiental e com a defesa da vida em todas as suas formas.

Um dos frutos mais significativos do encontro foi a elaboração do documento final, intitulado “Testamento e Ecologia”. Inspirado nos Testamentos de São Francisco e Santa Clara, o texto reafirma o compromisso da Família Franciscana com a justiça social, a ecologia integral e a proteção dos mais vulneráveis. Entre as propostas apresentadas, destaca-se o desejo de transformar Canindé em uma referência franciscana de cuidado com a criação e de promoção da Ecologia Integral.

As celebrações, peregrinações e momentos de oração enriqueceram profundamente a experiência do Capítulo. A caminhada até a estátua de São Francisco, as homenagens aos Estigmas e a Santa Clara, a peregrinação jubilar à Basílica e a celebração eucarística de encerramento fortaleceram os laços de fraternidade e renovaram em cada participante a alegria da vocação franciscana.

Ao regressarmos à Amazônia, trouxemos conosco mais do que lembranças de um grande evento. Retornamos fortalecidos pela certeza de que o legado de São Francisco continua vivo e necessário. Celebrar os oitocentos anos de sua Páscoa não significa apenas recordar o passado, mas assumir novamente sua missão profética de anunciar a paz, promover a fraternidade universal e cuidar da criação.

De Assis a Canindé, e de Canindé à Amazônia, o sonho de Francisco continua percorrendo estradas, rios e comunidades, inspirando homens e mulheres a viverem o Evangelho com simplicidade, alegria e compromisso. Em um mundo marcado por divisões, violência e indiferença, a mensagem franciscana permanece atual: somos todos irmãos e irmãs, chamados a construir uma cultura do encontro, da paz e do cuidado com a Casa Comum.

Paz e Bem!

Fr. Faustino, TOR

Delegação do Regional Norte – Amazonas e Roraima

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